4.26.2011

vidas...

Os mais atentos sabem que estive fora do meu ninho durante dois meses.

Durante esse período, em que estive no norte em casa de familiares, dediquei-me completamente a um trabalho extremamente chato e cansativo, mas necessário... e recompensador. Em tudo diferente do que algum dia já fiz.

Estive a trabalhar como recenseadora nos Censos. E quem nunca o fez, não imagina o quanto esta tarefa é difícil... Pfff!

Como ermita que tenho sido nos últimos anos, lido pouco com pessoas. E lidar com pessoas não é de todo fácil. Fazê-las abrir-nos a porta, a ouvir-nos, e ainda convencê-las a preencher uma quantidade de papéis com algumas perguntas um tanto duvidosas e ter de explicar e argumentar o impossível, ainda menos! Enfim...

O enfrentar algumas situações ajudou-me também a enfrentar alguns medos e fortaleceu-me.

Do acto de chegar a uma porta e tocar a uma campainha, ao momento em que porta se abre... tudo passa pela minha cabeça. O que me espera por detrás desta porta?

De situações caricatas, a situações difíceis. De situações simpáticas a outras menos. De tudo houve. Tudo me aconteceu. Mas não é só...

Por detrás dessas portas esperam-nos as casas, sim, mas casas com vidas lá dentro. Vidas.
E se de umas casas saímos iguais - sem nada saber, sem que nada nos afecte - de outras saímos diferentes.
Não se entra em todas as casas... mas por breves instantes entra-se em vidas, e sai-se delas, e elas entram em nós. 

O calor de um fogão-a-lenha numa cozinha pequena e acolhedora aquece-me o corpo e a alma num final de tarde frio e chuvoso. O ar é adocicado. A sopa ferve e fumega na panela. A lenha crepita. A senhora, pequena e simpática lembra-me a minha querida madrinha Etelvina que morreu à 11 anos. Matriarca de uma casa de 8 - entre filhos e netos - está a fazer bolinhos na mesa em que estou a escrever. Tudo me envolve e conforta. Não quero sair de lá. Sinto-me pequenina e sinto-me em casa.

Outras casas e vidas... Outras partilhas.
Entramos em casas e vidas. Elas entraram em nós e afectam-nos. Algumas afectam-nos.
Desde a solidão extrema, à doença, à morte recente. Tristeza.
São as suas dores, aquilo que as pessoas mais partilham. Principalmente, as mulheres.

Algumas delas não esqueço, nem quero esquecer. Mesmo sabendo que provavelmente, nunca mais voltarei a vê-las, quero guardá-las e às suas histórias, na minha memória... E honrar o momento em que se abriram comigo e me deixaram entrar nas suas vidas... Guardá-las com o carinho e respeito com que guardo todas as pessoas e histórias que algum dia entraram e tocaram a minha vida.


Da freguesia onde já vivi 3 anos e que agora conheço melhor, trago comigo um bocadinho.
E agora sei que sou também um pouquinho de lá.




4.13.2011

- xengo-delengo-tengo...

« Sempre acontecia assim: Zé Orocó sorria porque acabava de lembrar que a vida era pai d'égua de bonita.
Foi por isso que o remo deu um chape-chape tão suave que a água do rio quase virou música e a canoa deslizou macia como se voasse. »



Desculpem-me a ausência, o silêncio em que Rosinha, a canoa, tem navegado neste rio...
Não esteve parada, esteve a navegar, longe de casa.
E agora precisa de... encostar.

(...)
« - xengo-delengo-tengo. Dê mais três remadas e o recanto é ótimo...

Então ele botou na voz todo mel de todos os engenhos do brasil.

- você gosta de mim?

- xengo-delengo-tengo. gosto. e você?

- eu adoro você.

- xengo-delengo-tengo. você está mentindo.

- quer que eu jure? pois bem. juro pelas cinco chagas de são francisco de assis.

- xengo-delengo-tengo. são francisco de assis só tinha quatro chagas.

- tinha cinco. uma grandona, no coração, que ninguém podia ver. e agora?

-xengo-delengo-tengo. se é assim, é bonito. eu... eu... acredito.

Zé Orocó suspirou, aliviado. no céu, tainá-kan, a estrela grande dos carajás, fazia um pequeno halo de frio, em torno do seu enorme brilho.»
excerto de "Rosinha, minha canoa",
José Mauro de Vasconcelos


Volto em breve. Aqui ou noutro lugar!
Abraço